Até aqui, todas as metanálises compararam dois grupos (experimental e controle). Em muitas situações, porém, cada estudo informa apenas um grupo, e o interesse está em estimar a frequência de um evento: por exemplo, a prevalência de uma doença, a taxa de complicações de um procedimento ou a proporção de pacientes que respondem a um tratamento em estudos sem grupo controle.
Nesses casos, realizamos uma metanálise de braço único (single-arm meta-analysis), que combina as proporções observadas em cada estudo em uma proporção única.
9.1 Carregando os Pacotes
Assim como no capítulo anterior, usaremos os pacotes readxl e meta:
library(readxl) # Importar planilhas do Excellibrary(meta) # Realizar a metanálise
9.2 Preparando seu Conjunto de Dados
Em uma metanálise de proporções, cada estudo precisa informar apenas:
o número de eventos (por exemplo, número de óbitos ou de casos da doença);
o número total de participantes.
Neste capítulo, para fins didáticos, vamos reaproveitar a aba acm da planilha data.xlsx, apresentada no capítulo 5. Usaremos apenas o grupo aspirina de cada estudo (colunas event.e e n.e), como se cada ensaio tivesse um único braço. A pergunta passa a ser: qual a proporção de óbitos entre os pacientes que usaram aspirina após o infarto do miocárdio?
💡 Em uma revisão com estudos de braço único de verdade, a planilha teria apenas as colunas de identificação do estudo, número de eventos e número total de participantes.
9.3 Por que Transformar as Proporções?
Proporções têm características que dificultam a sua combinação direta: ficam sempre entre 0 e 1, e a sua variância depende do próprio valor da proporção, sendo muito pequena quando a proporção se aproxima de 0 ou de 1. Por isso, as proporções costumam ser transformadas antes da metanálise e, ao final, os resultados são convertidos de volta para a escala original.
As opções mais utilizadas no pacote meta são:
"PLOGIT" → Transformação logit (padrão do pacote).
"PFT" → Transformação de Freeman-Tukey (arco-seno duplo).
"PRAW" → Proporções sem transformação.
Atualmente, recomenda-se utilizar a transformação logit combinada a um modelo linear generalizado misto (GLMM), que analisa diretamente o número de eventos de cada estudo (Schwarzer G et al. Research Synthesis Methods, 2019;10:476-83).
9.4 Criando sua Metanálise
A função metaprop() é utilizada para realizar metanálises de proporções.
Principais argumentos da função metaprop()
event → Número de eventos em cada estudo (neste exemplo, event.e).
n → Número total de participantes em cada estudo (neste exemplo, n.e).
data → Nome do data frame contendo os dados da metanálise (neste exemplo, acm).
studlab → Nome da coluna contendo a identificação dos estudos (por exemplo, Author).
sm → Transformação utilizada: "PLOGIT", "PFT" ou "PRAW".
method → Método utilizado para combinar os estudos. Usaremos "GLMM"; a alternativa clássica é "Inverse" (inverso da variância).
O comando acima cria um novo objeto chamado m.prop, que armazenará a proporção de óbitos de cada estudo, a proporção combinada e as medidas de heterogeneidade.
💡 Com method = "GLMM", a variância entre os estudos (Tau²) é estimada por máxima verossimilhança. Por isso, não é necessário informar o argumento method.tau.
9.7 Visualizando os Resultados da Metanálise
summary(m.prop)
proportion 95% CI
MRC-1 0.0797 [0.0595; 0.1040]
CDP 0.0580 [0.0425; 0.0771]
MRC-2 0.1226 [0.1011; 0.1468]
GASP 0.1009 [0.0701; 0.1395]
PARIS 0.1049 [0.0847; 0.1281]
AMIS 0.1085 [0.0960; 0.1220]
ISIS-2 0.1828 [0.1747; 0.1912]
Number of studies: k = 7
Number of observations: o = 14186
Number of events: e = 2128
proportion 95% CI
Common effect model 0.1500 [0.1442; 0.1560]
Random effects model 0.1045 [0.0808; 0.1340]
Quantifying heterogeneity (with 95% CIs):
tau^2 = 0.1301; tau = 0.3607; I^2 = 96.9% [95.2%; 97.9%]; H = 5.64 [4.58; 6.95]
Test of heterogeneity:
Q d.f. p-value
Wald 190.95 6 < 0.0001
LRT 219.10 6 < 0.0001
Details of meta-analysis methods:
- Random intercept logistic regression model
- Maximum-likelihood estimator for tau^2
- Calculation of I^2 based on Q
- Logit transformation
- Clopper-Pearson confidence interval for individual studies
9.8 Interpretando os Resultados
Proporção combinada → No modelo de efeitos aleatórios, a proporção combinada de óbitos foi de 10,4% (IC 95%: 8,1% a 13,4%).
Efeito comum × efeitos aleatórios → O modelo de efeito comum estimou 15,0%, um valor bem mais alto. Isso acontece porque esse modelo dá grande peso ao estudo ISIS-2, que sozinho reúne 60,5% dos participantes e apresenta a maior proporção de óbitos (18,3%). Quando há heterogeneidade importante, o modelo de efeitos aleatórios é o mais adequado.
Heterogeneidade → O I² foi de 96,9%, indicando heterogeneidade muito alta. Isso é comum em metanálises de braço único, pois os estudos podem diferir em população, tempo de acompanhamento e contexto. Por isso, a proporção combinada deve ser interpretada com cautela.
Sem grupo de comparação → Uma metanálise de braço único descreve a frequência de um evento, mas não permite concluir se a aspirina aumenta ou reduz a mortalidade. Para isso, é necessária a comparação com um grupo controle, como fizemos no capítulo 7.