| Author | Year | n.e | mean.e | sd.e | n.c | mean.c | sd.c |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Davis | 1973 | 13 | 5.0 | 4.70 | 13 | 6.50 | 3.80 |
| Florell | 1971 | 30 | 4.9 | 1.71 | 50 | 6.10 | 2.30 |
| Gruen | 1975 | 35 | 22.5 | 3.44 | 35 | 24.90 | 10.65 |
| Hart | 1975 | 20 | 12.5 | 1.47 | 20 | 12.30 | 1.66 |
| Wilson | 1977 | 8 | 6.5 | 0.76 | 8 | 7.38 | 1.41 |
8 Meta-análise de desfechos contínuos
Neste capítulo, vamos aprender a realizar metanálises de desfechos contínuos, ou seja, desfechos medidos em uma escala numérica, como pressão arterial, escore de dor, peso corporal ou dias de internação.
Para acompanhar este capítulo, baixe a planilha continuos.xlsx e salve-a no seu diretório de trabalho. Ela reúne os dados de 5 estudos sobre o efeito do tratamento em saúde mental (psicoterapia) na utilização de serviços médicos, um exemplo clássico de meta-análise de desfecho contínuo (Fleiss JL. The statistical basis of meta-analysis. Statistical Methods in Medical Research, 1993;2:121-45), também disponível no pacote meta como Fleiss1993cont.
8.1 Carregando os Pacotes
Neste capítulo, usaremos os pacotes readxl e meta, que já foram instalados nos capítulos anteriores. Basta carregá-los:
library(readxl) # Importar planilhas do Excel
library(meta) # Realizar a metanálise8.2 Preparando seu Conjunto de Dados
Em uma metanálise de desfecho contínuo, cada estudo precisa informar, para cada grupo:
- o número de participantes;
- a média do desfecho;
- o desvio padrão do desfecho.
Assim, a planilha deve ter uma linha por estudo e as seguintes colunas:
- Author → Identificação do estudo.
- Year → Ano de publicação.
- n.e, mean.e e sd.e → Número de participantes, média e desvio padrão no grupo experimental.
- n.c, mean.c e sd.c → Número de participantes, média e desvio padrão no grupo controle.
💡 Alguns estudos informam o erro padrão (EP) em vez do desvio padrão (DP). Nesse caso, é possível convertê-lo com a fórmula DP = EP × √n, em que n é o número de participantes do grupo.
8.3 Importando os Dados
Assim como no capítulo 5, usamos a função read_excel() para importar a planilha e a função as.data.frame() para convertê-la em um data frame:
cont <- as.data.frame(read_excel("continuos.xlsx", sheet = "util"))
head(cont) Author Year n.e mean.e sd.e n.c mean.c sd.c
1 Davis 1973 13 5.0 4.70 13 6.50 3.80
2 Florell 1971 30 4.9 1.71 50 6.10 2.30
3 Gruen 1975 35 22.5 3.44 35 24.90 10.65
4 Hart 1975 20 12.5 1.47 20 12.30 1.66
5 Wilson 1977 8 6.5 0.76 8 7.38 1.41
8.4 Diferença de Médias ou Diferença de Médias Padronizada?
Antes de criar a metanálise, precisamos escolher a medida de efeito. Para desfechos contínuos, as duas opções mais comuns são:
Diferença de médias (MD, Mean Difference) → Utilizada quando todos os estudos medem o desfecho na mesma escala e na mesma unidade (por exemplo, pressão arterial em mmHg). O resultado é expresso na própria unidade do desfecho, o que facilita a interpretação.
Diferença de médias padronizada (SMD, Standardized Mean Difference) → Utilizada quando os estudos medem o mesmo desfecho com escalas ou instrumentos diferentes (por exemplo, questionários distintos de dor). O resultado é expresso em unidades de desvio padrão.
Nos estudos da nossa planilha, a utilização de serviços médicos não foi medida da mesma forma. Observe, por exemplo, que as médias do estudo de Gruen (entre 22 e 25) são bem maiores do que as dos demais estudos (entre 5 e 13). Diferenças nas médias, isoladamente, não provam que as escalas são diferentes, pois também podem refletir populações diferentes; o que justifica a escolha é saber como cada estudo mediu o desfecho. Como aqui as medidas não são comparáveis, usaremos a SMD, assim como fez Fleiss (1993) na análise original.
💡 Como referência aproximada, valores de SMD em torno de 0,2 costumam ser considerados efeitos pequenos; em torno de 0,5, moderados; e a partir de 0,8, grandes.
8.5 Criando sua Metanálise
A função metacont() é utilizada para realizar metanálises de desfechos contínuos.
Principais argumentos da função metacont()
n.e → Número de participantes no grupo experimental.
mean.e → Média do desfecho no grupo experimental.
sd.e → Desvio padrão do desfecho no grupo experimental.
n.c, mean.c e sd.c → Os mesmos dados para o grupo controle.
data → Nome do data frame contendo os dados da metanálise (neste exemplo,
cont).studlab → Nome da coluna contendo a identificação dos estudos (por exemplo,
Author).sm → Medida de efeito utilizada:
"MD"(diferença de médias) ou"SMD"(diferença de médias padronizada).method.smd → Método de cálculo da SMD. O padrão é
"Hedges"(g de Hedges), que corrige o viés da SMD em estudos pequenos.method.tau → Método utilizado para estimar a variância entre os estudos. Assim como no capítulo 7, usaremos
"DL"(DerSimonian-Laird).
8.6 Exemplo de Código
m.cont <- metacont(
n.e,
mean.e,
sd.e,
n.c,
mean.c,
sd.c,
data = cont,
studlab = Author,
sm = "SMD",
method.smd = "Hedges",
method.tau = "DL"
)8.7 O que acontece aqui?
O comando acima cria um novo objeto chamado m.cont, que armazenará todos os resultados da metanálise referente ao desfecho utilização de serviços médicos.
Para cada estudo, a função calcula a SMD entre o grupo que recebeu psicoterapia (experimental) e o grupo controle e, em seguida, combina os resultados de todos os estudos em uma estimativa única.
8.8 Visualizando os Resultados da Metanálise
Assim como no capítulo 7, utilizamos a função summary():
summary(m.cont) SMD 95% CI %W(common) %W(random)
Davis -0.3399 [-1.1151; 0.4353] 11.5 11.5
Florell -0.5659 [-1.0273; -0.1044] 32.6 32.6
Gruen -0.2999 [-0.7712; 0.1714] 31.2 31.2
Hart 0.1250 [-0.4954; 0.7455] 18.0 18.0
Wilson -0.7344 [-1.7566; 0.2877] 6.6 6.6
Number of studies: k = 5
Number of observations: o = 232 (o.e = 106, o.c = 126)
SMD 95% CI z p-value
Common effect model -0.3434 [-0.6068; -0.0801] -2.56 0.0106
Random effects model -0.3434 [-0.6068; -0.0801] -2.56 0.0106
Quantifying heterogeneity (with 95% CIs):
tau^2 = 0 [0.0000; 0.6935]; tau = 0 [0.0000; 0.8328]
I^2 = 0.0% [0.0%; 79.2%]; H = 1.00 [1.00; 2.19]
Test of heterogeneity:
Q d.f. p-value
3.68 4 0.4514
Details of meta-analysis methods:
- Inverse variance method
- DerSimonian-Laird estimator for tau^2
- Jackson method for confidence interval of tau^2 and tau
- Calculation of I^2 based on Q
- Hedges' g (bias corrected standardised mean difference; using exact formulae)
8.9 Interpretando os Resultados
Efeito combinado → No modelo de efeitos aleatórios, a SMD foi de −0,34 (IC 95%: −0,61 a −0,08; p = 0,01). O valor negativo indica que a média do grupo psicoterapia foi menor do que a do grupo controle.
Direção do efeito → Como valores menores indicam menor utilização de serviços médicos, o resultado mostra que os pacientes que receberam psicoterapia utilizaram menos os serviços médicos. Pela referência apresentada acima, trata-se de um efeito entre pequeno e moderado.
Heterogeneidade → O I² foi de 0%, indicando resultados consistentes entre os estudos. Por isso, os modelos de efeito comum e de efeitos aleatórios produziram o mesmo resultado. Observe, porém, que o intervalo de confiança do I² vai de 0% a 79,2%: com apenas 5 estudos, a estimativa da heterogeneidade é pouco precisa.
8.10 Criando o Forest Plot
A função forest() funciona da mesma forma que no capítulo 7. Em desfechos contínuos, o gráfico exibe a média, o desvio padrão e o número de participantes de cada grupo.
forest(
m.cont,
layout = "Revman5",
label.e = "Psicoterapia",
label.c = "Controle",
label.left = "Favorece psicoterapia",
col.label.left = "black",
ff.lr = "bold",
label.right = "Favorece controle",
col.label.right = "black",
random = TRUE,
common = FALSE,
digits.mean = 1,
digits.sd = 2,
col.square = "darkblue",
col.square.lines = "black",
col.diamond = "black"
)
8.11 Principais Argumentos da Função forest()
Os principais argumentos já foram apresentados no capítulo 7. A seguir, destacamos os que mudam em desfechos contínuos.
digits.mean e digits.sd
Controlam o número de casas decimais exibidas para as médias e os desvios padrão de cada grupo.
label.left e label.right
Em desfechos contínuos, o lado favorecido depende do significado da escala. Neste exemplo, valores menores representam menor utilização de serviços médicos, então o lado esquerdo favorece a psicoterapia. Se valores maiores fossem desejáveis (por exemplo, em um escore de qualidade de vida), os rótulos deveriam ser invertidos.
8.12 Resumo do Tutorial
Ao final deste capítulo, aprendemos como realizar uma metanálise de desfechos contínuos utilizando o pacote meta.
Em resumo:
Organizamos a planilha com o número de participantes, a média e o desvio padrão de cada grupo;
Escolhemos entre a diferença de médias (MD) e a diferença de médias padronizada (SMD);
Realizamos a metanálise com a função
metacont();Interpretamos o efeito combinado e a heterogeneidade com a função
summary();Construímos o Forest Plot e ajustamos os rótulos de acordo com a direção do efeito.